terça-feira, 21 de outubro de 2014

Eu e a minha mãe ... a minha mãe e a minha avó ...

Desciamos a rua a correr, eu e a minha mãe ... ela à frente, eu logo atrás, bem coladinha a ela. Ela chegava sempre primeiro ... ria-se de sorriso aberto ... eu amuava ... mas sem saber como, acabava também a rir!

A minha avó tinha galinhas, tinha uma horta grande e cozia o pão num forno a lenha. Viviam num mundo rural, mas sem grandes dificuldades ... faziam férias, a dispensa estava sempre cheia e eram eles - os avós - quem nos comprava os brinquedos mais caros. A minha mãe não trabalhava fora, cuidava de nós a tempo inteiro, geria a casa ... jurava que nunca havia de matar uma galinha, comprava o pão na padaria e não percebia muito de hortas.

A minha avó morreu precocemente ... e a minha mãe matou as galinhas. Lembro-me  da preocupação que tinha - corto-lhe o pescoço com um machado e depois fujo para não ver a galinha morrer - dizia ela, confiante na decisão, mas menos na execução ...

Sentiu diferença no sabor das couves e alfaces compradas na loja, decidiu fazer um canteiro ou dois, com umas nabiças e alguma salsa ... depressa cresceu para uma horta do tamanho daquela, que a minha avó tinha ... Há uns anos atras, ofereci-lhe uma máquina de fazer pão ... sentiu o cheiro do pão fresco e a saudade de tempos antigos do pão feito em casa. Recuperou a tradição, aprendeu a amassar o pão, a aquecer o forno ... adquiriu técnicas próprias, que agora já partilha com mestria ... 
A minha mãe tem sempre aquele sorriso no rosto ... um sorriso aberto ... não fala de doenças, parece-nos sempre bem ... e eterna !!

Da sua horta, trago para casa quase tudo, menos as cenouras que não se dão naquele terreno ... do seu galinheiro, trago os ovos e a carne saborosa dos frangos ... também trago peixe ... isso ainda não percebi de onde vem ... :)

Eu, depois do desemprego, cuido da casa e dos meus filhos a tempo inteiro ... não sinto coragem para matar uma galinha ... e da horta, não percebo muito ... quanto ao pão, quando não tenho o da mãe, faço na máquina, porque não me entendo com o forno a lenha ...

Há semanas a minha mãe estava doente, sempre com aquele sorriso no rosto, sem queixas nem lamentos, de conversa fácil e amável, ninguém diria que estava doente ... só a necessidade de "fechar um bocadinho os olhos, porque a cabeça não está bem" e um arrastar no andar lhe traíam o disfarce. -"Está bem? ... estou, estou ... isto já passa, só preciso de me sentar um bocadinho" Mas nunca por muito tempo  "- Se o corpo se habitua ao descanço, não quer outra coisa e depois está sempre doente "- diz com um misto de ironia e convicção.

Há dias a minha mãe voltou a estar doente ...ela que nunca estava doente,  reparei como envelheceu, já não fazemos corridas a descer a rua, mas o sorriso fácil continua ... e o brilho no olhar também ...
- Está melhor? 
- Estou ...foi só uma virose ...

Sinto-me impotente ... sei que por tras daquele riso contagiante, está um riso cansado ... mas não o consigo quantificar, pois o brilho no seu olhar ofusca-me a visão ... Regresso a casa de coração apertado e com um nó na gartanta, sempre com a ideia disparatada de que havia de "aprender" a matar uma galinha ... que havia de comprar uns botins de borracha e ir para a horta ... que havia de aprender a conhecer o lastro do forno a lenha ... mas não quero ... mas sei que devia ...
- Até para a semana!! - digo-lhe - para a semana, sou eu quem amassa o pão!! - já o disse mil vezes, e mil vezes já ela se riu ... porque há tarefas que são das mães ... e as mães são eternas.

- Hoje para o jantar é frango da avó! - comento com os meu filhos ...
- É ela quem mata as galinhas, mãe?
- Claro!!
- Que noooojo!!!
Aposto que também eles nunca vão matar uma galinha, ter uma horta ... ou amassar o pão! Aposto, mas não tenho a certeza de ganhar a aposta ...



6 comentários:

  1. Que lindo te ler e ver as diferenças e as nem tanto assim;;;Que tua mãe fuque bem e possas ter dessa companhia por muito tempo! E seria bom que teus filhos convivessem bastante com esse tipo de coisa. É a volta , é a simplicidade da vida. Mesmo sem matar galinhas, coisa que eu também nunca conseguiria... Lindo! bjs, chica

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  2. Adorei o teu texto!!!!
    Desejo as melhoras da tua mãe!
    Bjs :)

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  3. Adorei adorei adorei o teu texto.
    Faz-me lembrar a minha mãe, falei nela tambem á pouco tempo no blog.
    Tambem eu não vi que ela estava a ficar "velhinha", mas a minha quando tem de ser mata galinhas, e chama-me para eu as ir depenar que já não tem força nas mãos para tal.
    Vou ler mais um bocadinho no teu blog.
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  4. Que saudades do pão em forno de lenha da minha avó, das hortaliças da sua horta, dos frangos (que habilmente matava e depenava, e nós as netas espreitávamos como fazia, acompanhado de um "que horror"). Foi-se a avó, e com ela estes cheiros, estes costumes, que saudades nos deixam. Que a tua recupere, que continuem a viver esse legado.

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    1. Olá, felizmente a minha mãe já recuperou e era mesmo uma virose.
      É verdade, é mesmo um legado que eu prezo muito e que gostaria de passar para os meus filhos.
      beijinhos

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  5. Ah o cheiro do pão em forno a lenha! que saudades!

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